Os que despejam esta poção na nossa água
Os Senhores dos Adormecidos
Se acordássemos não podiam nada
Contra nós que somos vivos
Os Senhores dos Adormecidos
Não os ricos ou os poderosos
Os meio-homens enganosos
Que amam representar de protector
Infligem-nos uma dose de dor
Para poderem ser o salvador
Dando palmadinhas nas costas
Nos nossos fracturados ossos!
Saboreando-nos, caviar em tostas,
Num reinado de destroços
Os Senhores dos Adormecidos
Nem sempre os públicos ou os famosos
Muitos andam andrajosos
Pobres e mal nutridos
Fazem-se puros, os orgulhosos -
Puros e pervertidos
Os Senhores dos Adormecidos
Cantam a sua perversa cantilena
A de que eu e tu, nascemos
Com a mente demasiado pequena
Para pensarmos por nós mesmos
É, portanto, forçoso, que os deixemos
Infligir-nos a sua culpa, a sua pena
Porque somos fracos e não sabemos
Os Senhores dos Adormecidos
Os de uma cultura, um só credo
Uma só lição, a doutrina do medo
Pretendem determinar o chão onde pisas
Clamam, o teu cérebro é demasiado pequeno
O mundo é mau, monstruoso, um ermo
Que só eles te podem amar como precisas
O Sr. dos Adormecidos
Defenderá com exultação
O seu real reinado de estrume
Elevando-se aos píncaros da indignação
Quando a verdade vem a lume,
Arrastando a tua dignidade na humilhação
Sempre que a mascara sucumbe
Entre os Srs. Dos Adormecidos há duas estirpes
O mosca tsé-tsé e o varejeira verde
Insistem, resistem, a menos que os estripes
Um, adormece-te em pe, como a um bebé
Para o outro, depois, vir comer-te
Os Srs. dos Adormecidos possuem ponto fraco
São só Senhores enquanto tu fores o servo
Acorda, põe-te a milhas, faz-te já ao largo
Pois, só tu lhes garantes a coroa e o ceptro.
segunda-feira, 30 de julho de 2007
quarta-feira, 25 de julho de 2007
Promontório do Presente
Do promontório do presente
Contemplamos o passado
O caminho aberto e o cerrado
O mar encrespado,
A terra, até onde a vista alcança
A escassez e a bonança
Pesados lado a lado
Para onde pende essa balança?
Do promontório do presente –
Todos, um dia, o teremos que subir
Chegados a loucos,
Miopes e moucos,
Os que a si mesmo fingem
Será, então, altura
De dessa alta envergadura
Testarmos a nossa vertigem
Trémulos de mente e de pernas
Há os que cedo se despenham
E que num voo picado se empenham
A lutar com as vagas nada amenas
Sem sereias serenas
Que lhes mitiguem as penas
Tritões, apenas, que os arpeiam
Outros, pouco afoitos,
Não terão sequer coragem de subir
Serão empurrados por esse cabo
A confrontar o passado – os doidos
Na berma, com o vento a bulir
E o vento grita a sua verdade maldita
Terrível de ouvir
Do promontório do presente
Porque até o presente é ilusório
O justificativo escapatório
É preciso ter presente
Quando sentimos que é premente
Para arrumar o desarrumado
Olhar do presente
Para o distante passado
Do promontório do presente
Precisaremos de óculo, de binóculo,
Para sondar o horizonte obscuro?
E será alto o suficiente o babélico observatório
Para observarmos o Ontem pouco abonatório
Sustentando-nos apenas no presente inseguro?
Quem deseja saber escala a sua escarpa
Galga-o a punho, sem bússola ou mapa
Deixa a máscara no primeiro planalto,
O figurino, no segundo
Dá sem fôlego a última braçada
Ergue-se farto de comer o pó e o nada
E do píncaro contempla o mundo.
Contemplamos o passado
O caminho aberto e o cerrado
O mar encrespado,
A terra, até onde a vista alcança
A escassez e a bonança
Pesados lado a lado
Para onde pende essa balança?
Do promontório do presente –
Todos, um dia, o teremos que subir
Chegados a loucos,
Miopes e moucos,
Os que a si mesmo fingem
Será, então, altura
De dessa alta envergadura
Testarmos a nossa vertigem
Trémulos de mente e de pernas
Há os que cedo se despenham
E que num voo picado se empenham
A lutar com as vagas nada amenas
Sem sereias serenas
Que lhes mitiguem as penas
Tritões, apenas, que os arpeiam
Outros, pouco afoitos,
Não terão sequer coragem de subir
Serão empurrados por esse cabo
A confrontar o passado – os doidos
Na berma, com o vento a bulir
E o vento grita a sua verdade maldita
Terrível de ouvir
Do promontório do presente
Porque até o presente é ilusório
O justificativo escapatório
É preciso ter presente
Quando sentimos que é premente
Para arrumar o desarrumado
Olhar do presente
Para o distante passado
Do promontório do presente
Precisaremos de óculo, de binóculo,
Para sondar o horizonte obscuro?
E será alto o suficiente o babélico observatório
Para observarmos o Ontem pouco abonatório
Sustentando-nos apenas no presente inseguro?
Quem deseja saber escala a sua escarpa
Galga-o a punho, sem bússola ou mapa
Deixa a máscara no primeiro planalto,
O figurino, no segundo
Dá sem fôlego a última braçada
Ergue-se farto de comer o pó e o nada
E do píncaro contempla o mundo.
sexta-feira, 20 de julho de 2007
Mãos inúteis
Mãos inúteis lavam as lágrimas
De crocodilo, inúteis, ofendem os olhos
Mestres hábeis da mascarada
Garras inúteis que atormentam os sonhos
Luvas inúteis constroem castelos
Fortalezas sem fim, inúteis, portanto
Driblam projectos abjectos, secretos
Fúteis, essas membros, urdem segredos
Fazendo do nada outro tanto
Apêndices inúteis de inúteis vozes
Murmurantes, sussurrantes, confidentes
Comprovam: São mais as vozes que as nozes
Batendo com a língua nos dentes
Próteses inúteis estendidas aos céus, rogando
Juntas, tacteando sem tacto, rezando
Ou sem remorso, acenando adeus
Apertando outras próteses, cumprimentando
Esticando o indicador, traindo
Traindo implacavelmente os seus

Dedos compridos, finos
Com unhas cortantes
Que se cravam, libertinos,
Nas costas dos amantes
Dedos negros, suspeitos
Vorazes e delicados
Que se espetam, inquietos
No coração dos amados
Palmas com a linha da vida: longa
A linha do coração: curta
A linha da razão: ausente
E a linha da memória: diminuta
Palmas batendo palmas
À estatura de palmo e meio
Vendo a sombra agigantar-se
Sob a luz dum candeeiro
Palmas, uma salva de palmas
Para essa alma de carroceiro
Vendo a estatura expandir-se
A troco d'algum dinheiro
Nessa dança emulando Circe
Ó mestre títereiro
Suam as mãos hipócritas
Atrás das costas, uma delas, numa figa, aperta-se
Jurando, outra, sobre o peito, pela alma dos finados
Uma faz, diligente, a continência
E a outra nunca se põe na consciência
Quando dispara sobre os condenados
Essas mãos que recebem, que pedem
Que exigem mais do que merecem
Que se vendem imundas nos mercados
Fazem do homem, homúnculo
E dos asnos, doutorados
Dos espertos, o novo mundo
E dos inteligentes, alienados.
De crocodilo, inúteis, ofendem os olhos
Mestres hábeis da mascarada
Garras inúteis que atormentam os sonhos
Luvas inúteis constroem castelos
Fortalezas sem fim, inúteis, portanto
Driblam projectos abjectos, secretos
Fúteis, essas membros, urdem segredos
Fazendo do nada outro tanto
Apêndices inúteis de inúteis vozes
Murmurantes, sussurrantes, confidentes
Comprovam: São mais as vozes que as nozes
Batendo com a língua nos dentes
Próteses inúteis estendidas aos céus, rogando
Juntas, tacteando sem tacto, rezando
Ou sem remorso, acenando adeus
Apertando outras próteses, cumprimentando
Esticando o indicador, traindo
Traindo implacavelmente os seus

Dedos compridos, finos
Com unhas cortantes
Que se cravam, libertinos,
Nas costas dos amantes
Dedos negros, suspeitos
Vorazes e delicados
Que se espetam, inquietos
No coração dos amados
Palmas com a linha da vida: longa
A linha do coração: curta
A linha da razão: ausente
E a linha da memória: diminuta
Palmas batendo palmas
À estatura de palmo e meio
Vendo a sombra agigantar-se
Sob a luz dum candeeiro
Palmas, uma salva de palmas
Para essa alma de carroceiro
Vendo a estatura expandir-se
A troco d'algum dinheiro
Nessa dança emulando Circe
Ó mestre títereiro
Suam as mãos hipócritas
Atrás das costas, uma delas, numa figa, aperta-se
Jurando, outra, sobre o peito, pela alma dos finados
Uma faz, diligente, a continência
E a outra nunca se põe na consciência
Quando dispara sobre os condenados
Essas mãos que recebem, que pedem
Que exigem mais do que merecem
Que se vendem imundas nos mercados
Fazem do homem, homúnculo
E dos asnos, doutorados
Dos espertos, o novo mundo
E dos inteligentes, alienados.
sábado, 7 de julho de 2007
O eunuco da mente
Na sua fortaleza forçada permanece
Um eunuco da mente
Irado e descontente
Que à janela de quando em quando aparece
Para dizer ao mundo como se sente
Esse forçado eunuco da mente
Anseia por fecundar um pensamento diferente
No estéril óvulo da imaginação dolente
Dos outros eunucos da mente, voluntários
Vive, no entanto, como os rosários
No pescoço das beatas pendente
Como o mais pudendo dos emissários
Vive contrafeito
Pois não lhe assiste esse direito
De ser livre e libertino
Para o ventre e para o peito
Procriando as ideias dum novo destino
Chora o eunuco da mente,
Na sua torre de marfim, implacável
Não pode descer, não o consente
O sacro, o puro, o venerável

Do seu marmóreo túmulo vertical
Avista horizontes que não pode comunicar
Está forçado esse eunuco, num pedestal
Preferia ser homem e poder pecar
O eunuco da mente está irado:
“Tirem-me da mente esse cinto da castidade!”
Sobra a semente do seu pecado não consumado
Para fecundar nenhuma verdade
Um dia descerá o eunuco da mente
Um dia, promete, um dia
Dessa torre de marfim, pétrea, fria
E expulsará o celibato num repente
Para fecundar a mãe verdade, um dia
Estuprando a sua essência pia.
Um eunuco da mente
Irado e descontente
Que à janela de quando em quando aparece
Para dizer ao mundo como se sente
Esse forçado eunuco da mente
Anseia por fecundar um pensamento diferente
No estéril óvulo da imaginação dolente
Dos outros eunucos da mente, voluntários
Vive, no entanto, como os rosários
No pescoço das beatas pendente
Como o mais pudendo dos emissários
Vive contrafeito
Pois não lhe assiste esse direito
De ser livre e libertino
Para o ventre e para o peito
Procriando as ideias dum novo destino
Chora o eunuco da mente,
Na sua torre de marfim, implacável
Não pode descer, não o consente
O sacro, o puro, o venerável

Do seu marmóreo túmulo vertical
Avista horizontes que não pode comunicar
Está forçado esse eunuco, num pedestal
Preferia ser homem e poder pecar
O eunuco da mente está irado:
“Tirem-me da mente esse cinto da castidade!”
Sobra a semente do seu pecado não consumado
Para fecundar nenhuma verdade
Um dia descerá o eunuco da mente
Um dia, promete, um dia
Dessa torre de marfim, pétrea, fria
E expulsará o celibato num repente
Para fecundar a mãe verdade, um dia
Estuprando a sua essência pia.
domingo, 1 de julho de 2007
Oeiras, um retrato

Foto: Portuguese_eyes
Os figos quase em Agosto, quase violetas
O seu perfume, no ar, um perfume caro
Nevam dos choupos os algodões – ascetas –
- Ascendendo aos céus de Santo Amaro
As ameixas brotando sanguíneas, rutilantes
No monumento ao Ultramar, aos seus mortos
Escorre-nos pelos lábios o seu sumo – bacantes –
- Celebrando c’ o sangue os heróicos esforços
Os jardins ajardinados em disposição cuidada
Por cem mãos zelosas de esmero e veludo
Nos canteiros, ei-los, a flor e a ramada
Da Páscoa ao Inverno, do Verão ao Entrudo
Uma brisa avisa, uma maresia na rua
Uma valsa quente/fria onde uma balsa desmaia
O mar marulha onde o Tejo desagua
E a balsa, bem-vinda, vem dar à nossa praia
Galopam os corcéis, na estação, as garças
Nos parques, as crianças, findando as brincadeiras
Fazem birras aos pais em cândidas farsas
Implorando-lhes: não deixem a Vila de Oeiras!
Por toda esta vida vidrante vibra a feira,
A exposição, a festa, o fabuloso arraial
Corre pelo quadrante a fascinante ribeira
Da Laje ao Atlântico, através do Pombal.
sábado, 30 de junho de 2007
Cemitério dos prazeres

A morte de Orpheu -Emile Levi (1826 -1890)
Sombras mil e fantasmas outros tantos
Que a mim se atiçavam
Se esganiçavam em prantos
Delinquentes e outros seres danados
Atraía-os de todos os lados
Falsos extrovertidos, eu não sei quantos
Buscavam apoio, compreensão
E nisso éramos unidos, na solidão
Mas depois, talvez p’la vergonha
Porque ficar em divida é uma prisão
Castigavam-me a boa acção
Quem salvava eu, afinal?
Quem ia eu buscar ao fundo do oceano
Senão o meu próprio corpo
No corpo de outro humano?
As megeras manhosas, ainda que belas
Na minha cama pernoitavam à luz das velas
Os astutos proxenetas
E outros diabos pernetas
Todos me rodeavam – pudera! –
- Eu alimentava essa grande fera
Definharia eu para conjurar tais abutres?
Estaria preso para emparelhar com presidiários?
Buscava o céu em Gomorra
O paraíso em Sodoma
A face dos anjos na dos ordinários
Ah! Andar no labirinto,
Ainda não definido,
É um deleite distinto
De um ser vendido
Vive-se tudo na pressa
Os prazeres e a história
E no fim da remessa
Nem memória nem glória
Um prazer é coisa extensa
Para se ir saboreando
Sôfregos e com pressa
Torna-se mediano
Um prazer é sentar e ver
É deixar embeber o corpo
É de mim me esquecer
Passeando por ti um pouco.
segunda-feira, 25 de junho de 2007
Poemas orgânicos: Alergias

(Monumento à obra de Gogol, "O nariz")
Que vida tem um homem que não respira?
Fecha-se em casa, anda rezingão
Sufoca, agita-se, transpira
Tentando fugir ao caixão
Que vida tem um homem que não respira
Prestes a implodir, no limite
Anda com a vida na mira
Presa da sinusite
Que vida tem um homem que sufoca,
Que sufoca e que sufoca, sem alegria
Esconde-se na sua escura e húmida toca
Obstipado pela alergia
Que vida tem um homem que funga,
Que funga e que funga, assaz desesperado
Impossibilitado de inalar a vida
Pelo seu septo desviado
Que vida tem um homem que assoa,
Que assoa e que assoa, estando sempre só
Que dizer desse cidadão de proa
Que se atordoa até com o pó
Que vida tem um homem que não dorme,
Que não dorme e não dorme, que vive na quimera
Nunca está bem a dormir ou bem acordado
Vive em fila de espera
Que vida tem um homem que espirra,
Que espirra e que espirra, de olhos raiados
Esse homem que com tudo embirra
E que todos deixa chateados
Que vida tem um homem que escarra,
Que escarra e que escarra, expelindo o veneno
A sua doença é uma amarra
O seu coração faz-se pequeno
Se na rua virem este homem passar
Sejam compreensivos para com a sua ira
Dêem-lhe espaço, o seu devido lugar
Lembrem-se, ele afinal não respira
Se na rua virem este homem passar
Sejam compreensivos, não façam troça
Deixem-no primeiro altercar
E depois, quando se cansar
Ajudem-no a sair da fossa.
sábado, 23 de junho de 2007
Loja de almas

(Persephone - Thomas Hart Benton)
Amou-me um dia uma rapariga
Com fome, com sofreguidão
Ria, chorava, andava perdida
Idolatrava-me, queria perdão
Devotou-se-me um dia uma rapariga
E seu amor era total sacrifício
Que se lhe pedisse, a essa amiga,
Atirava-se ao precipício
Não sei que fizera
Para merecer tal sectarismo
Seria magia negra
Que a dispunha ao abismo?
Seria partida –
Paixão não era –
Esse ponto cúmulo do histerismo?
Indaguei e acabei por descobrir
Não tinha alma e partilhava da minha
Mas não podia eu, uma alma, dividir
Era já pequenina, a alma que eu tinha
Compadeci-me dela, da desalmada
Quis achar alma que lhe servisse
Procurei numa loja alada
Uma que também me divertisse
Impingi-lhe uma alma novinha em folha
Uma de rapace e moderna fêmea
Uma fatiota de minha escolha
Para dela fazer minha alma gémea
Vesti-a, levei-a a sair, a candura
Mas que mal se sentiu nesse fato
Ficava-lhe apertada a cintura
Demasiado largo, o sapato
Fui descobri-la desnuda, nuínha
Chorando à beira de um regato
Despira a alma que não lhe convinha
Ficara bela como o pecado.
sábado, 16 de junho de 2007
As três irmãs

(Morte de Sardanapal, Delacroix, 1827, Museu do Louvre.)
Havia três irmãs
Três frescas romãs
Hilde,
Brunilde e
Ermegilde,
Todas as três belas e sãs
Lá para os reguengos de Alvide
Três formosas aldeãs
Quem as três vê não se decide
Hilde, uma chama
Se corava incendiava
A primeira que vi
A primeira que amei
Um amor de segredo
Pois tal era meu medo
De realizar o que fantasiava
De hominizar quem divinizei
Ao longe seguia Hilde
Pelo campo, pela vereda
E descobrindo-a adormecida
Todo eu era labareda
Ao longe seguia Hilde
E aquele amor era um perigo
Fazia ela um gesto simples
E tinha-me por terra, rendido
Mas porque o sonho é insuficiente
E quem nele vive bem o sente
Procurei Hilde a ver se desfazia
A minha insensata erotomania
Havia três irmãs
Três frescas romãs
Hilde,
Brunilde e
Ermegilde,
Todas as três belas e sãs
Lá para os reguengos de Alvide
Três Formosas aldeãs
Quem as três vê não se decide
De peito feito como quem se decide
De passo apressado dirigi-me a Alvide
Ia confessar-me seu indefectível fã
Abriu-me a porta a bela Brunilde
Pasmei! Era tão bela quanto a irmã
De perto, muito de perto
Seguia Brunilde
Colava-me ao seu peito como um talismã
Sonhar com Hilde
Era um passatempo humilde
Mas ao fantasiar correcto
(De perto, de muito perto)
Preferi provar A maçã
Brunilde era uma rola esquiva
Alimentava uma larga pretendência
Mentia e era manipulativa
Cultivava-me a demência
Negava-se a ser só de um indivíduo
Queria, dizia, a liberdade
Mas que liberdade era aquela
Que me mantinha cativo?
Como repartir a felicidade?
Faminto de seu corpo e
De sua traição alimentado
Fechei os olhos à facada
Para ficar ao seu lado
Mas aquele, estava visto,
Mais que comprovado,
Era um mau compromisso,
Um negocio furado
Eu dava e ela recebia,
Jamais me retribuía,
Encantada!
Humilhado,
Tratado como um capacho
A caminho me pus de Alvide
Estava bem bebido
Bêbedo como um cacho,
Divertido comigo,
Borracho
Abriu-me a porta Ermegilde

Havia três irmãs
Três frescas romãs
Hilde,
Brunilde e
Ermegilde,
Todas as três belas e sãs
Lá para os reguengos de Alvide
Além de bela, Ermegilde era doce
De uma bondade compreensiva
Chorei no seu colo, a dor dissipou-se
E ela, que não era dissoluta, furtiva,
Pelo raiar da manhã
Havia tomado o lugar da irmã
À fantasia intangivel de Hilde
Substituíra eu o tacto real de Brunilde
Mas cansado de provar A maçã
Ao raiar da manhã
Eu amava Ermegilde
Juntámo-nos e celebrámos a boda
Dançámos, fizemos grande festa,
Cansado de ma ou nenhuma alcova
Servia-me quem tinha dois dedos de testa
Assim me casei
Não quis só o sonho ou só o real
Quis o real total sonhado
Há noites, contudo, confesso,
Em que dificilmente adormeço
Em que por uma ideia fixa sou perturbado
A ideia de que a Ermegilde
Falta um pouco de Hilde e de Brunilde
Então, para esses dias distantes
Do passado, me deixo levar
E por breves, muito breves,
Brevissimos instantes
Revivo o extase dos amantes
Ainda por domar
Havia três irmãs
Três frescas romãs
Hilde,
Brunilde e
Ermegilde,
Todas as três belas e sãs
Lá para os reguengos de Alvide
Três Formosas aldeãs
Quem as três vê não se decide
quinta-feira, 14 de junho de 2007
O aprendizado

(Goya - Saturno)
Quando finalmente,
Homem me tornei,
De mente, feições, gestos e corpo
E senti que me insuflavam, os deuses,
De quatro, o segundo sopro
Chamou-me, meu pai com a sua expressão sisuda
Não me reeprendeu
Não me sovou pela minha conduta
Antes, um pecúlio, no bolso, me meteu
E, preservando a fronte carrancuda
Disse-me: "Toma! Chegou a hora! Vai à luta!"
Não sabia o que me sucederia, relembro,
Era uma tarde chuvosa de Novembro
E sem tempo para soluço, sem um único ai
Deixei, tremendo, a casa de meu pai
Eu era instruído, criativo, tinha sonhos
Oh, que sonhos!
Oh, ingenuidade!
Construir Elíseus gregos,
Devolver a visão aos cegos,
Colocar a nação no pódio
Tornar férteis desertos secos
(Oh, verde idade!)
Achar a cura do ódio
E a pouco e pouco
A cada porta que batia
À procura de ofício
Era um sonho que se desfazia
Ninguém queria um salvador belo e bravo
Por acaso, não saberia eu de um diligente escravo?
Escravos dos escravos dos escravos!
Cravos dos cravos, encravados!
Dizia esta filosofia que por toda a parte ouvi
Que senhor de si é quem tem escravos
E que se eu não os tinha era porque um deveria ser
“Alegre-se, senhor!”, diziam,
"Quem é escravo tem porta onde bater!"
Mas que profissão era essa, a de ser escravo?
Onde podia eu tirar um curso de subserviência?
Era um dom com que se nascia?
Uma manifesta tendência?
Uma inata apetência para o servir e ser rebaixado?
“Oh! Meu deus! Tenho fome, não quero morrer!
Preciso de trabalhar para comer!
Alguém, por favor, me ensina a ser escravo?”
E pelas ruas da cidade voguei
Que nem um perdido
Visto a alternativa a ser escravo
Ser tornar-me bandido
Procurei a pior e a mais abjecta súcia
Uma cáfila tal que não a perdoaria a irmã Lúcia
E desde logo, na arte da burla, comecei a ser instruído
Surripiar, escamotear,
Roubar ao cego em vez do curar
Toda esta técnica eu observava, pasmado
Mas como nesse mundo baixo como o ventre
Nada de nada é sagrado
A súcia não descansou contente
Enquanto não me viu defraudado

“Ah! Não há sítio seguro!”, queixei-me
“Não há castelo, fortaleza ou muro
Que por muito duro
Coloque à escravidão açaime"
E já perto da amargura, do cinismo
Vi que perdia a inocência
Corri para os braços do baptismo,
Da divina clemência
E desfazendo-me do meu parco dinheiro
Dei entrada num mosteiro
Daí em diante, doravante
Concomitante com a beatitude,
No contrato expresso realizado com Jeová
Desdobrava-me em solicitude
Para não despertar a Sua ira
E poder cear o Seu maná
Ajoelhava-me a elogiá-Lo
Vinte vezes ao dia
E nesse cerimónia
Ele era tudo, eu não existia,
Clamava pela sua infinita boaventura
Mas uma ideia, contudo, persistia
O que era aquela sacristia
Senão um altar à escravatura?
Desordenei-me e fui excomungado
Saí dali, eu o diabo a meu lado
E desde então,
Após toda a experiência e verificação
Ousei concluir no fim:
“Não existe na terra um lugar para mim!”
Desde então passo fome,
Não sei se amanhã tenho tecto
E isto não é senão mais agrura
Sei-o porque escolhi esse defeito
Não sei para o que tenho jeito
Mas não o tenho, de certeza, para a escravatura
Olho, hoje, o firmamento
Sinto acariciar-me a cara, o vento
Rodeiam-me os mistérios da terra
A treva brilhante e a aurora obscura
E sinto inflamar-me por dentro
O fogo portento do homem que erra
E é sem escravatura.
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