Um nicho de seu,
Procura um homem
Uma terra onde ser rei
Suporta os vermes que o comem
Só não suporta ser ninguém
Procura ele uma rainha
Para ocupar, ao seu lado, o trono
E também uma ou outra concubina
Que saiba quem ali domina
Que reconheça a voz ao dono
Erguerá então a sua fortaleza
No mais inalcançável rochedo
E governará com ares de realeza
Suscitando o respeito e o medo
Por esse reino todos porfiamos
Seguindo este ou aquele caminho
Sendo justos ou astutos malandros
Quer acompanhado quer sozinho
A esse reino só um terá direito
Ao morrerem os vermes que nos comem
Conquistando o indizível feito
De se tornar o último homem.
domingo, 23 de setembro de 2007
quinta-feira, 20 de setembro de 2007
A grande guerra
O problema da guerraChegou um dia a todos nós
E da alegria discreta
Passámos à alegria completa
E da infelicidade média
À tristeza atroz
Chegaram os petardos
Libertando-nos dos fardos
Zumbiram, caíram
Destruindo o trabalho
E em uníssono todos rejubilámos:
Não havia mais servidão!
Os petardos
Como moscardos
Zumbiram, caíram, então,
Destruindo os vizinhos
E nós, embora atordoados
Embora um pouco mais sozinhos
Juntos celebrámos:
Não havia mais competição!
Mas os obuses
Das ofuscantes luzes
Zumbiram, caíram,
Estoiraram, levando-nos as pernas
E sem muros nem telhados,
Nem portas nem janelas
Regressados que estávamos
Às frias cavernas
Ingénuos, ainda pensámos:
"Graças a deus! Vivo!"
Foi quando o céu inclemente se rasgou
E de lá, de repente, se precipitou
O arsenal definitivo:
Levou-nos o que nos sobrava, os braços
"Meu deus! Como darei agora abraços"
A quem me libertou de ser cativo?
"A minha alma é uma amálgama de estilhaços
Estou feito aos pedaços
Jazo mas sobrevivo"
Entre quem faz a guerra
Há ponto em comum, assaz
Que guerreando a terra
É maneira de se chegar à paz
A guerra alimenta,
Enriquece e prospera
Tanto quanto atormenta,
Apodrece e degenera
Mas quem nega essa fera
Nega apenas que dentro de si
Se já não chora e já não ri
Estoirou em grande a grande guerra.
sexta-feira, 7 de setembro de 2007
Como se adensa o crime
Como se adensa o crime?
O que lhe acrescenta ingrediente?
Como conspira a mente
Para lhe dar o seu aspecto sublime?
Como se transforma um homem num meliante?
Um bom paroquiano num hábil farsante?
Como, per suma, num instante
Se adensa o crime?
No seu lar aconchegado
A Maria põe a mesa
E o Manel, cheio de fraqueza
Após todo o dia a trabalhar
Exige à esposa destreza
Na confecção do manjar
Respinga aquela que não é parva
Que não nasceu para burro de carga
Que se o Manel quer comida
Que vá ele amassar o pão
Mas aquele não vai de meia medida
Levanta alto o bordão
Acaba-lhe ali mesmo com a vida
É presente ao Juiz:
- Porque mataste, ó infeliz?
- Meritoríssimo, Venerável, Honorabilíssimo Senhor Doutor!
Passo a vida a receber ordens
A ser controlado
Não posso consentir, nem pelo mais alto favor
Que na minha casa seja um criado!
Cai o martelo sobre a banca
Arrasta o meirinho o infeliz
E grita-lhe nas costas o juiz:
- Cem anos de prisão!
Dura lex sed lex
E viva Talião!
Mas como se adensa o crime?
Vamos lá explorar!
Como um ser num segundo é pacífico
E no seguinte se põe a altercar
Como atenta uma ovelha
Contra o seu próprio templo?
Vejamos outra cena
A título de exemplo:
O empregado na loja do patrão
Pensa para si na solidão
Na tristeza daquele comércio
Como é injusto que o outro se encha de patacão
Ande por aí jactante como um barão
E este, o que trabalha,
Não veja nem um sestércio
Um dia, decidido
A não fazer mais queixa
Fecha a porta, olha em volta
Deita a mão à caixa
Olha de novo para todo o lado
Apura o total do saqueado
E está Contente porque se decidiu
Das duas opções que a vida lhe deu:
Roubar ou ser roubado
É presente ao juiz:
- Porque roubaste, ó infeliz?
- Meritoríssimo, Venerável, Honorabilíssimo Senhor Doutor
Trabalho que nem um escravo
Não vejo nem um centavo
Porque me rouba o patrão e é louvado?
Porque roubo eu e sou um horror?
Cai o martelo sobre a banca
Arrasta o meirinho o infeliz
E grita-lhe nas costas o juiz:
- Cem anos de prisão!
Dura lex sed lex
E viva Talião!
Mas vamos lá pôr nesta pesquisa mais vontade
A fim de se apurar a verdade
E desvendar como se adensa o crime
Que com os exemplos acima fornecidos
Quase estamos convencidos
Que é exercício sublime
Casa-se a virgem com velha companhia
Com o matrimónio arranjado
E de acordo com o ritual imaculado
Perde, forçada, a essência pia
O velho, que só lhe arrepia
Não possuía esse direito
Vinga-se ela amando jovens de dia
E à noite, negando-lhe o leito
Mas a vida prega partidas
E já namora ela às escondidas
Um jovem oficial de cavalaria
Atiram a um poço o chato do velho
Herdam-lhe o opulento mealheiro
E juntos fazem nova vida
É presente ao juiz:
- Porque mataste ó infeliz?
- Meritoríssimo, Venerável, Honorabilíssimo Senhor Doutor
Se o amor é cego
Porque me forçam ao mesmo?
Obriga o catecismo
A entregarmo-nos sem amor?
Cai o martelo sobre a banca
Arrasta o meirinho a infeliz
E grita-lhe nas costas o juiz:
- Cem anos de prisão!
Dura lex sed lex
E viva Talião!
E agora que estamos na posse de suficientes dados
Para nos sentirmos, com franqueza, deveras chocados
Sabemos que o crime se adensa
Se cumpre e se pensa
Porque a ele somos forçados.
O que lhe acrescenta ingrediente?
Como conspira a mente
Para lhe dar o seu aspecto sublime?
Como se transforma um homem num meliante?
Um bom paroquiano num hábil farsante?
Como, per suma, num instante
Se adensa o crime?
No seu lar aconchegado
A Maria põe a mesa
E o Manel, cheio de fraqueza
Após todo o dia a trabalhar
Exige à esposa destreza
Na confecção do manjar
Respinga aquela que não é parva
Que não nasceu para burro de carga
Que se o Manel quer comida
Que vá ele amassar o pão
Mas aquele não vai de meia medida
Levanta alto o bordão
Acaba-lhe ali mesmo com a vida
É presente ao Juiz:
- Porque mataste, ó infeliz?
- Meritoríssimo, Venerável, Honorabilíssimo Senhor Doutor!
Passo a vida a receber ordens
A ser controlado
Não posso consentir, nem pelo mais alto favor
Que na minha casa seja um criado!
Cai o martelo sobre a banca
Arrasta o meirinho o infeliz
E grita-lhe nas costas o juiz:
- Cem anos de prisão!
Dura lex sed lex
E viva Talião!
Mas como se adensa o crime?
Vamos lá explorar!
Como um ser num segundo é pacífico
E no seguinte se põe a altercar
Como atenta uma ovelha
Contra o seu próprio templo?
Vejamos outra cena
A título de exemplo:
O empregado na loja do patrão
Pensa para si na solidão
Na tristeza daquele comércio
Como é injusto que o outro se encha de patacão
Ande por aí jactante como um barão
E este, o que trabalha,
Não veja nem um sestércio
Um dia, decidido
A não fazer mais queixa
Fecha a porta, olha em volta
Deita a mão à caixa
Olha de novo para todo o lado
Apura o total do saqueado
E está Contente porque se decidiu
Das duas opções que a vida lhe deu:
Roubar ou ser roubado
É presente ao juiz:
- Porque roubaste, ó infeliz?
- Meritoríssimo, Venerável, Honorabilíssimo Senhor Doutor
Trabalho que nem um escravo
Não vejo nem um centavo
Porque me rouba o patrão e é louvado?
Porque roubo eu e sou um horror?
Cai o martelo sobre a banca
Arrasta o meirinho o infeliz
E grita-lhe nas costas o juiz:
- Cem anos de prisão!
Dura lex sed lex
E viva Talião!
Mas vamos lá pôr nesta pesquisa mais vontade
A fim de se apurar a verdade
E desvendar como se adensa o crime
Que com os exemplos acima fornecidos
Quase estamos convencidos
Que é exercício sublime
Casa-se a virgem com velha companhia
Com o matrimónio arranjado
E de acordo com o ritual imaculado
Perde, forçada, a essência pia
O velho, que só lhe arrepia
Não possuía esse direito
Vinga-se ela amando jovens de dia
E à noite, negando-lhe o leito
Mas a vida prega partidas
E já namora ela às escondidas
Um jovem oficial de cavalaria
Atiram a um poço o chato do velho
Herdam-lhe o opulento mealheiro
E juntos fazem nova vida
É presente ao juiz:
- Porque mataste ó infeliz?
- Meritoríssimo, Venerável, Honorabilíssimo Senhor Doutor
Se o amor é cego
Porque me forçam ao mesmo?
Obriga o catecismo
A entregarmo-nos sem amor?
Cai o martelo sobre a banca
Arrasta o meirinho a infeliz
E grita-lhe nas costas o juiz:
- Cem anos de prisão!
Dura lex sed lex
E viva Talião!
E agora que estamos na posse de suficientes dados
Para nos sentirmos, com franqueza, deveras chocados
Sabemos que o crime se adensa
Se cumpre e se pensa
Porque a ele somos forçados.
Bela Adormecida
Não posso chamar a este amor "amor"
Não posso chamar a este amor um fogo
Que este amor tem muito de morte
E quando te beijo é a morte que eu como
Não posso chamar a este amor "felicidade"
Não abraço a felicidade se te abraço
Célere passa por nós a melhor idade
É melhor chamar a este amor "fracasso"
Não posso chamar à tua ausência "saudade"
Não posso chamar à tua presença "paixão"
Se não está sinto-me em Liberdade
Se apareces, numa prisão
Acorda ó bela!
Que o Sol da vida se põe cedo
Acorda ó bela!
Antes da noite e do medo
Resgata-te a esse feérico torpor!
Acorda ó bela!
Que depois do Sol só há negro
Não posso chamar a este amor "amor".
Não posso chamar a este amor um fogo
Que este amor tem muito de morte
E quando te beijo é a morte que eu como
Não posso chamar a este amor "felicidade"
Não abraço a felicidade se te abraço
Célere passa por nós a melhor idade
É melhor chamar a este amor "fracasso"
Não posso chamar à tua ausência "saudade"
Não posso chamar à tua presença "paixão"
Se não está sinto-me em Liberdade
Se apareces, numa prisão
Acorda ó bela!
Que o Sol da vida se põe cedo
Acorda ó bela!
Antes da noite e do medo
Resgata-te a esse feérico torpor!
Acorda ó bela!
Que depois do Sol só há negro
Não posso chamar a este amor "amor".
quinta-feira, 6 de setembro de 2007
Três Fúrias que és só uma

Amável Erínia
Juro! O teu veneno é o meu preferido
Mas amável Erínia, peço-te
Dá-me hoje folga do maldito
Amável Alecto
Juro! O teu aguilhão é o meu dilecto
Mas amável Alecto, imploro
Poupa-me hoje a esse espeto
Amável Megera
Juro! Os teus gritos são melodia
Mas, amável Megera, por favor
Poupa-me hoje à gritaria
Amável Tisífone
Juro, a tua cólera é-me cara
Mas, amável Tisífone, rogo-te
Solta-me hoje essa amarra
Três Fúrias que és só uma
Três penúrias numa penumbra
Que até de Hércules farias tanso
Poupa-me ao teu amor de catacumba
Resgato-me antes que sucumba
Reinstalo a paz e o descanso
Três Fúrias que és só uma
Três penúrias numa penumbra
Dás-me fogo a ver se amanso
Poupa-me à tua carícia iracunda
Deixo para trás o que se afunda
Subo da escada um outro lanço.
O apátrida

Carrego em mim uma vontade
Mal compreendida de ser feliz
Uma vontade que não tem a ver
Com ser-se português
Com ser-se português
Que é ser-se triste e explorado
Escravo e mal amado
E não consigo perceber,
Ninguém me diz,
Porque somos um povo
Que não se sabe divertir
Que é falso quando se põe a rir
Com a sua gargalhada insincera
Um risinho nervoso de hiena
Com o infortúnio de alguma Madalena
A quem se desmanchou o prazer
Quero expatriar-me dessa infelicidade nacional
Desse cunho anormal
Que é ser-se português
E ocorre-me que talvez
Tenha sangue bárbaro
De godo, visigodo, eslavo ou de cataro
Sangue celta, que os celtas sabem dançar
Ou sangue brasileiro, que esses sim, sabem amar
Não posso é acreditar que sou português
Porque ao contrario dos meus conterrâneos
Não desejo ser infeliz
Tudo o que faço é com ideia na boa disposição
Encher as canecas, distribuir o pão
E, contudo, levam-me isso a mal
Dai eu duvidar que seja luso de raiz
Porque nunca levaria a mal
Que outro tentasse ser feliz
O meu pai nasceu no Porto
A minha mãe em Odemira
E por isso me admira
Que de luso em mim haja tão pouco
Que sou pragmático e objectivo a felicidade
Que gosto de me rir e, enfim,
Afecto, por dever, a lugubridade
Para não ofender a seriosidade
Que se diz inata ao luso
Por deferência para com o costume e com o uso
O meu avô nasceu em Leiria
A minha avó em Gaia
E tenho congéneres na raia
E na costa vicentina
Por isso não se me descortina
Porque não sou eu lusitano
Porque não quero andar mal
E de mal andar não me ufano
Do sotavento ao barlavento
Espalhou o meu tetravô, rebento
O que lhe valeu o cognome de O Povoador
Do Litoral ao Interior
Multiplicou-se p’lo amor
Mas eu, que partilho a descendência
Não me contento
Em partilhar a mesma dor
Porque se isto de ser-se luso
É cantar o fado
Eu prefiro andar calado
Que não tenho jeito para gemer
Prefiro entregar-me ao prazer
Do que andar p’rai amuado
Não me hão de convencer
A covardemente desistir
Não me hão de persuadir
A fazer de coitado.
quinta-feira, 30 de agosto de 2007
As comadres
Quando as comadres se juntam a um canto
E soltam as línguas com um quilómetro
Do nada urdem, num instante, um manto
Bordado de escândalo e de assombro
Entretidas esmiúçam as vidas
Condimentando-as com muito sal
E ficam deveras divertidas
Apontando a raiz do mal
Ele é aquele vizinho que trai a mulher
E aquela mulher que trai o vizinho
E aquele, um chupista! Anda de choffeur!
E aqueloutro, um incapaz, o pobrezinho!
Quando as comadres se juntam a um canto
A sua finalidade é bem sabida
Cheias de asco, apontam aos outros o tanto
Que falta à sua própria vida
É uma felicidade quando uma vê a outra
Apressam-se a pôr a conversa em dia
E sentem-se mais limpas, com nova roupa
Maldizendo o cunhado, o genro, a tia
Mas se não há nada para falar
Ai! Que não chegue esse terrível segundo!
É preciso, então, inventar
Calúnia que as desvie do seu risível mundo
“Olha aquela! De mini-saia! Uma porca!
Olha aquele! De carro novo! Um canastrão!
Aquele miúdo, pobre coitado, um idiota!
Os pais não lhe deram educação?”
Quando as comadres se juntam a um canto
As cabeças rolam por aí além
Da cave esquerda ao terceiro direito
Não escapo eu, não escapa ninguém.
E soltam as línguas com um quilómetro
Do nada urdem, num instante, um manto
Bordado de escândalo e de assombro
Entretidas esmiúçam as vidas
Condimentando-as com muito sal
E ficam deveras divertidas
Apontando a raiz do mal
Ele é aquele vizinho que trai a mulher
E aquela mulher que trai o vizinho
E aquele, um chupista! Anda de choffeur!
E aqueloutro, um incapaz, o pobrezinho!
Quando as comadres se juntam a um canto
A sua finalidade é bem sabida
Cheias de asco, apontam aos outros o tanto
Que falta à sua própria vida
É uma felicidade quando uma vê a outra
Apressam-se a pôr a conversa em dia
E sentem-se mais limpas, com nova roupa
Maldizendo o cunhado, o genro, a tia
Mas se não há nada para falar
Ai! Que não chegue esse terrível segundo!
É preciso, então, inventar
Calúnia que as desvie do seu risível mundo
“Olha aquela! De mini-saia! Uma porca!
Olha aquele! De carro novo! Um canastrão!
Aquele miúdo, pobre coitado, um idiota!
Os pais não lhe deram educação?”
Quando as comadres se juntam a um canto
As cabeças rolam por aí além
Da cave esquerda ao terceiro direito
Não escapo eu, não escapa ninguém.
terça-feira, 28 de agosto de 2007
Uma mulher controla
Uma mulher controla
Elevando a bitola
Uma mulher controla
Exigindo-te esmola
Fazendo-te saltar a mola
Tocando-te como uma pianola
Uma mulher controla
Uma mulher controla
E assim que tentas recuperar parte do teu reinado
Logo, de misoginia, és prontamente acusado
Porque tratando-te como um estarola
Levando-te fechado dentro da sacola
Uma mulher controla
Uma mulher controla
Uma mulher controla chorando,
Implorando-te, nua
Compadecendo-te, amolecendo-te
Com a sua natureza crua
E quando finalmente a crise se atenua
Vês que afinal era só uma graçola
Porque, na verdade,
Uma mulher controla
Uma mulher controla
E assim que tentas obter, do paraíso, um bocado
Logo, de machismo, és imediatamente acusado
A tua virilidade torna-se uma piada farsola
A tua inteligência, uma anedota de corredor de escola
Porque, afinal,
Uma mulher controla
Uma mulher controla

Uma mulher controla dizendo:
“Eu não consigo! Eu sou frágil!
Explica-me outra vez!”
E quando te cansas de explicar os porquês
Diz: “Eu já sabia!”
Com o ar mais inocente e mais cortês
Com um ar que te desafia
E tu controlas a indignação que te empola
Porque, no fundo,
Uma mulher controla
Uma mulher controla
Mas se lhe exiges um pretexto para os seus actos
és escandalosamente acusado de maus-tratos
E só há uma razão para a angústia que te assola
A de que, da biqueira do sapato ao alto da gola
Uma mulher controla
Uma mulher controla
Uma mulher controla
Com o seu ímpeto tagarela
Saturando-te com paleio
Sobre a vida dela
Vira o disco e toca o mesmo
Como uma eterna grafonola
Uma mulher controla
Uma mulher controla
Mas se lhe pedes o silêncio, um merecido intervalo
Acusa-te de nunca ouvires o seu sincero abalo
Ofende-se, comove-se
E a lágrima pelo seu rosto rola
Porque, verifica-se,
Uma mulher controla
Uma mulher controla
Uma mulher controlou
Quando te pôs no mundo, como mãe
Controlar-te-á, ainda, uma mulher
Quando fores para o além
Herdando a tua riqueza
Que do árduo trabalho provém
Passeando diamantes
Controlando novos amantes
Enquanto o teu caixão, na lama, se atola
Porque, no fim de tudo,
É sabido, neste mundo
Uma mulher controla.
Elevando a bitola
Uma mulher controla
Exigindo-te esmola
Fazendo-te saltar a mola
Tocando-te como uma pianola
Uma mulher controla
Uma mulher controla
E assim que tentas recuperar parte do teu reinado
Logo, de misoginia, és prontamente acusado
Porque tratando-te como um estarola
Levando-te fechado dentro da sacola
Uma mulher controla
Uma mulher controla
Uma mulher controla chorando,
Implorando-te, nua
Compadecendo-te, amolecendo-te
Com a sua natureza crua
E quando finalmente a crise se atenua
Vês que afinal era só uma graçola
Porque, na verdade,
Uma mulher controla
Uma mulher controla
E assim que tentas obter, do paraíso, um bocado
Logo, de machismo, és imediatamente acusado
A tua virilidade torna-se uma piada farsola
A tua inteligência, uma anedota de corredor de escola
Porque, afinal,
Uma mulher controla
Uma mulher controla

Uma mulher controla dizendo:
“Eu não consigo! Eu sou frágil!
Explica-me outra vez!”
E quando te cansas de explicar os porquês
Diz: “Eu já sabia!”
Com o ar mais inocente e mais cortês
Com um ar que te desafia
E tu controlas a indignação que te empola
Porque, no fundo,
Uma mulher controla
Uma mulher controla
Mas se lhe exiges um pretexto para os seus actos
és escandalosamente acusado de maus-tratos
E só há uma razão para a angústia que te assola
A de que, da biqueira do sapato ao alto da gola
Uma mulher controla
Uma mulher controla
Uma mulher controla
Com o seu ímpeto tagarela
Saturando-te com paleio
Sobre a vida dela
Vira o disco e toca o mesmo
Como uma eterna grafonola
Uma mulher controla
Uma mulher controla
Mas se lhe pedes o silêncio, um merecido intervalo
Acusa-te de nunca ouvires o seu sincero abalo
Ofende-se, comove-se
E a lágrima pelo seu rosto rola
Porque, verifica-se,
Uma mulher controla
Uma mulher controla
Uma mulher controlou
Quando te pôs no mundo, como mãe
Controlar-te-á, ainda, uma mulher
Quando fores para o além
Herdando a tua riqueza
Que do árduo trabalho provém
Passeando diamantes
Controlando novos amantes
Enquanto o teu caixão, na lama, se atola
Porque, no fim de tudo,
É sabido, neste mundo
Uma mulher controla.
sábado, 25 de agosto de 2007
Lenir o cansaço de existir
Que seria da existência
Sem os vulgos prazeres?
Suportaríamos os deveres
Os pesados afazeres
Sem perder a paciência?
O que fariamos com a modorra?
Caros amigos, tenham paxorra
É preciso lenir o cansaço de existir
Já não posso com os pés e as mãos de tanto bulir
É preciso lenir o cansaço de existir
Os doces de alcova,
Os vícios de intervalo
Não existe esse regalo
Para que suportemos a caminhada?
Onde cabe nisto tudo a culpa?
Quem inventou essa desculpa
Para a grei andar domada?
Já não posso com a cabeça, doi-me a voz de tanto discutir
É preciso lenir o cansaço de existir
Não será um insulto à existência
Frustrarmos os prazeres
Com que ela nos dotou?
Digo isto porque se quedou,
O nosso corpo, há dois mil anos,
Onde um falso celibatário andou
Entre os judeus e os romanos
Pregando a sua ingerência
Oxalá seja mais leve o longínquo devir
É preciso lenir o cansaço de existir
Não há castidade pura
Que não seque ou murche em duas gerações
Como se vive, depois, sem recordações
Da perda dessa candura?
É para inventariar o pecado
Que os céus são extensos
E os seus amanuenses – anjos pretensos
Mas há dois milénios que no céu é feriado
E de todos os sofredores
Só Job foi indemnizado
Já não tenho forças nem para tossir
É preciso lenir o cansaço de existir
Como? Preguiça é crime?
Mas há lá prática mais sublime
Para espicaçar a criatividade!
Não nos criou Deus no princípio
E descansa há uma eternidade?
Dotou-nos da sua culpa danada
Encheu-nos de fome e de pancada
E, desde então,
Nunca mais fez nada
Não há nenhum deus que me venha acudir
É preciso lenir o cansaço de existir.
Sem os vulgos prazeres?
Suportaríamos os deveres
Os pesados afazeres
Sem perder a paciência?
O que fariamos com a modorra?
Caros amigos, tenham paxorra
É preciso lenir o cansaço de existir
Já não posso com os pés e as mãos de tanto bulir
É preciso lenir o cansaço de existir
Os doces de alcova,
Os vícios de intervalo
Não existe esse regalo
Para que suportemos a caminhada?
Onde cabe nisto tudo a culpa?
Quem inventou essa desculpa
Para a grei andar domada?
Já não posso com a cabeça, doi-me a voz de tanto discutir
É preciso lenir o cansaço de existir
Não será um insulto à existência
Frustrarmos os prazeres
Com que ela nos dotou?
Digo isto porque se quedou,
O nosso corpo, há dois mil anos,
Onde um falso celibatário andou
Entre os judeus e os romanos
Pregando a sua ingerência
Oxalá seja mais leve o longínquo devir
É preciso lenir o cansaço de existir
Não há castidade pura
Que não seque ou murche em duas gerações
Como se vive, depois, sem recordações
Da perda dessa candura?
É para inventariar o pecado
Que os céus são extensos
E os seus amanuenses – anjos pretensos
Mas há dois milénios que no céu é feriado
E de todos os sofredores
Só Job foi indemnizado
Já não tenho forças nem para tossir
É preciso lenir o cansaço de existir
Como? Preguiça é crime?
Mas há lá prática mais sublime
Para espicaçar a criatividade!
Não nos criou Deus no princípio
E descansa há uma eternidade?
Dotou-nos da sua culpa danada
Encheu-nos de fome e de pancada
E, desde então,
Nunca mais fez nada
Não há nenhum deus que me venha acudir
É preciso lenir o cansaço de existir.
A falsa antítese: moral e prazer
Quem corta uma mão para que
Não estorve a acção da outra?
Quem fura de propósito uma vista
Para ver melhor da que sobra?
Quem persegue essa insana obra?
Quem se abstém do prazer, para ser virtuoso
E sendo virtuoso se esquece de ser feliz?
Quem ignora o que o seu corpo diz
E se obceca a controlá-lo?
Quem abertamente o despreza
Procurando amá-lo?
Quem é o infeliz
Que se compraz em castrá-lo?
Quem é que, entre vós,
De vontade própria abafa a sua voz?
Quem é que se tem por meretriz
Quando por um segundo se descuida
Pensando em jogos pueris?
Se és vós, deixai-me dar-vos um conselho:
Assim jamais chegarás a velho!
Ética não é antítese de prazer carnal
O mais completo eudomonismo
Encerra em si mesmo um hedonismo
Mas vós preferis
Torcer, ao prazer, o nariz
Ver em todo o lado... o Mal.
Não estorve a acção da outra?
Quem fura de propósito uma vista
Para ver melhor da que sobra?
Quem persegue essa insana obra?
Quem se abstém do prazer, para ser virtuoso
E sendo virtuoso se esquece de ser feliz?
Quem ignora o que o seu corpo diz
E se obceca a controlá-lo?
Quem abertamente o despreza
Procurando amá-lo?
Quem é o infeliz
Que se compraz em castrá-lo?
Quem é que, entre vós,
De vontade própria abafa a sua voz?
Quem é que se tem por meretriz
Quando por um segundo se descuida
Pensando em jogos pueris?
Se és vós, deixai-me dar-vos um conselho:
Assim jamais chegarás a velho!
Ética não é antítese de prazer carnal
O mais completo eudomonismo
Encerra em si mesmo um hedonismo
Mas vós preferis
Torcer, ao prazer, o nariz
Ver em todo o lado... o Mal.
Subscrever:
Mensagens (Atom)