Nos dias da ira a minha vontade expira
Só penso em destruir
Corro como louco como o bruto Orinoco
- O Tejo não, que o seu tormento é rouco –
Um tritão sem tridente
No fundo do Guadalquivir
O Etna, deixando a fase latente
Após muitos séculos dormente
Quer exercitar os membros, expandir
A sua cratera é uma insalubre fossa demente
Quer atirar connosco ao nadir
Há na Manchúria taigas perversas
Geadas agrestes, avessas
À ideia do homem existir
Sou, então, como uma delas
Dessas que pintadas em telas
Parecem da moldura querer se evadir
Convoco a neve à galeria
Minhas chuvas são uma antítese da alegria
E os meus ventos sombras do devir
Nem em Leiria os pinhais mansos, de pinheiros bravos
Nem em Monchique os sobreiros velhos, domesticados
Encontro paralelismos para os meus dias da ira
Só os pólos austeros, habitados
De bestas e demónios alados
Ombreiam com os desacatos provocados
Pelos meus dias da ira
No fundo dos mares, as moreias repelentes
E os tubarões de dentes salientes
Incutindo fé aos medrosos crentes
Raias eléctricas e leviatans
Que desacreditam os amanhãs
São, ao meu lado, umas bonequinhas de vestir
Os elefantes indianos,
Os tigres comedores de humanos
Os bárbaros inumanos de Alcácer-Quibir
Arrancam-me quando muito um bocejo de dormir
Não há na natureza
Uma imagem que com franqueza
Me permita transmitir
O que nesses dias é a minha destreza na vontade de destruir
Contudo, tu que me vês assim
Tu, que já me viste como os lagos da Baviera
Pacífico, parado, como as neves da serra
Um Atacama onde a areia se não ergue
Um estreito de Bering sem iceberg
Tu que me conheces como ninguém
Olhas para mim, para o meu ar irado
E não te pareço mais que um gatinho assustado
Perseguindo obsessivamente a sua cauda tosca
E sabes com uma sabedoria de Matusalém
Que não meto medo a ninguém
Que não faço mal nem a uma mosca.
segunda-feira, 20 de agosto de 2007
quarta-feira, 15 de agosto de 2007
Os neo-helenos
O que nos oferecem estes tempos
Que nos convençam a ficar?
O que neles me persuade?
A ideia de liberdade?
A sua atmosfera de lupanar?
Mas se tudo isso é volátil e eu não lhe posso tocar!
O que me oferecem estes tempos, digam-me,
Que me persuade a não partir?
Dos prazeres, das alegrias colho os restos
As flores, se as pego, têm espinhos funestos,
Sangram a borbotos minhas mãos sobre os cardos
Os regatos, secos se os alcançamos,
Estagnados, cheios de moscardos,
Desonestos, desumanos
Brilham apenas na miragem,
Na vontade de os alcançarmos
As florestas são de vidro
As chuvas, de pedra da Manchúria
As gentes, estátuas de Policleto
Incentivando-nos à penúria
Serei turista convencido
Pelo colorido da brochura,
Pela beleza estática e plana do panfleto?
Se sim, abdico agora mesmo da procura
É ao olvídio que eu me remeto
Mas digam-me, o que me oferecem estes tempos?
O que me dão eles que me sussurre:
“Não te vás ainda.”?
O que me dão que perdure,
Que me alimente e que me cure?
As obras piramidais,
Os constructos monumentais,
As mil maneiras de saciar a fome que não finda?
Dão-me os tempos o que apregoam
Os convincentes comerciais:
Uma lata de feijão pela mão de uma modelo linda?
Quem vive o que se vive no refrão das canções,
Os ais, suspiros, todas as emoções?
Quem o tem em demasia que mo faça ter de somenos?
E são eficazes esses venenos?
Quem experimentou já essas poções?
Que intervale as suas pulsões!
Que desça ao Inferno dos terrenos!
Para me encaminhar ao Olimpo dos neo-helenos!
Que nos convençam a ficar?
O que neles me persuade?
A ideia de liberdade?
A sua atmosfera de lupanar?
Mas se tudo isso é volátil e eu não lhe posso tocar!
O que me oferecem estes tempos, digam-me,
Que me persuade a não partir?
Dos prazeres, das alegrias colho os restos
As flores, se as pego, têm espinhos funestos,
Sangram a borbotos minhas mãos sobre os cardos
Os regatos, secos se os alcançamos,
Estagnados, cheios de moscardos,
Desonestos, desumanos
Brilham apenas na miragem,
Na vontade de os alcançarmos
As florestas são de vidro
As chuvas, de pedra da Manchúria
As gentes, estátuas de Policleto
Incentivando-nos à penúria
Serei turista convencido
Pelo colorido da brochura,
Pela beleza estática e plana do panfleto?
Se sim, abdico agora mesmo da procura
É ao olvídio que eu me remeto
Mas digam-me, o que me oferecem estes tempos?
O que me dão eles que me sussurre:
“Não te vás ainda.”?
O que me dão que perdure,
Que me alimente e que me cure?
As obras piramidais,
Os constructos monumentais,
As mil maneiras de saciar a fome que não finda?
Dão-me os tempos o que apregoam
Os convincentes comerciais:
Uma lata de feijão pela mão de uma modelo linda?
Quem vive o que se vive no refrão das canções,
Os ais, suspiros, todas as emoções?
Quem o tem em demasia que mo faça ter de somenos?
E são eficazes esses venenos?
Quem experimentou já essas poções?
Que intervale as suas pulsões!
Que desça ao Inferno dos terrenos!
Para me encaminhar ao Olimpo dos neo-helenos!
O herói promissor
Chorar não choro
Que as tintas dissolvem
Chorar não choro
Não dar prazer aos que me comem
Chorar não choro
Riposto c’a histrionia
Rir – só com o fracasso
Sim, sou um palhaço
Mas não por alegria
A rir por rir
Não me obrigarás
Andar às arrecuas como Satanás
Sorrir por sorrir
Porquê? Não sou um Vizir
Não tenho haréns como os Paxás
Nem a chorar nem a rir
Só para te divertir
Como me sabes me acharás
Carrancudo, taciturno
Macambúzio como se lhe devessem o mundo
Enjoado, calado e circunspecto
Possuo um tal aspecto
Que ao passarem por mim, as crianças
Como que trespassadas por lanças
Gritam com horror profundo:
“Meu Deus! Que homem aquele! Q’horror! Doente e imundo!”
É por capricho que não mudo
Por teimosia que não sorrio
Quero-me assim carrancudo
Para afastar de mim o mundo
E todo o seu veneno frio
É por casmurrice inveterada
E se cedo à gargalhada
É só quando algum dos vossos heróis
Hercúleo e de negros caracóis
Se afoga, drasticamente, no rio
Ouço-vos então, as lágrimas, as histórias
Da bela infância roubada
Como um dia carpiram por mim
Enquanto nesse rio eu me afogava
Hercúleo e de negros caracóis
Como o mais promissor dos heróis
Eu ia ao fundo e vocês: nada
De bom grado daria a mão a esse afogado
Se soubesse que salvá-lo, ressuscitá-lo,
Não o traria à vossa companhia
Como quando me resgataram a esse lago
Depois de me terem empurrado
E entre-dentes me gozavam, encharcado
E eu sorria, e sorria
Declarei, desde então, o fim do sorriso e das lágrimas
Arranquei todas essas páginas
Os sucessivos banhos frios
Rosno, tenho raiva, mostro-vos os dentes
Quero-vos ao longe, aos contentes
Com os vossos afogados e os vossos rios
E se me achais triste, soturno, descontente
Mal desafogado, amargurado, cheio de dor
Sabei que rejubila a minha mente
Por não ser mais o vosso herói promissor.
Que as tintas dissolvem
Chorar não choro
Não dar prazer aos que me comem
Chorar não choro
Riposto c’a histrionia
Rir – só com o fracasso
Sim, sou um palhaço
Mas não por alegria
A rir por rir
Não me obrigarás
Andar às arrecuas como Satanás
Sorrir por sorrir
Porquê? Não sou um Vizir
Não tenho haréns como os Paxás
Nem a chorar nem a rir
Só para te divertir
Como me sabes me acharás
Carrancudo, taciturno
Macambúzio como se lhe devessem o mundo
Enjoado, calado e circunspecto
Possuo um tal aspecto
Que ao passarem por mim, as crianças
Como que trespassadas por lanças
Gritam com horror profundo:
“Meu Deus! Que homem aquele! Q’horror! Doente e imundo!”
É por capricho que não mudo
Por teimosia que não sorrio
Quero-me assim carrancudo
Para afastar de mim o mundo
E todo o seu veneno frio
É por casmurrice inveterada
E se cedo à gargalhada
É só quando algum dos vossos heróis
Hercúleo e de negros caracóis
Se afoga, drasticamente, no rio
Ouço-vos então, as lágrimas, as histórias
Da bela infância roubada
Como um dia carpiram por mim
Enquanto nesse rio eu me afogava
Hercúleo e de negros caracóis
Como o mais promissor dos heróis
Eu ia ao fundo e vocês: nada
De bom grado daria a mão a esse afogado
Se soubesse que salvá-lo, ressuscitá-lo,
Não o traria à vossa companhia
Como quando me resgataram a esse lago
Depois de me terem empurrado
E entre-dentes me gozavam, encharcado
E eu sorria, e sorria
Declarei, desde então, o fim do sorriso e das lágrimas
Arranquei todas essas páginas
Os sucessivos banhos frios
Rosno, tenho raiva, mostro-vos os dentes
Quero-vos ao longe, aos contentes
Com os vossos afogados e os vossos rios
E se me achais triste, soturno, descontente
Mal desafogado, amargurado, cheio de dor
Sabei que rejubila a minha mente
Por não ser mais o vosso herói promissor.
sábado, 4 de agosto de 2007
O ausente
Um homem de meia-idade, Mário Manso, tomou-se de amores por uma mulher de uma aldeia vizinha. Essa mulher era bela, da sua geraçao, e havia permanecido solteira por ser muito independente e não aceitar que qualquer um mandasse nela. Os dois casaram-se e foram viver para casa dele, apesar de muito o haverem aconselhado a não o fazer.
- É mulher ruim! Foi cortesã de muitos e acabou desposada de nenhum! Nunca se interessou pelas lides da casa, não sabe sequer costurar!
Protestaram alguns familiares que asseveravam apenas querer o seu bem. Porém, do seu bem sabia ele e não quis dar ouvidos a vozes soltas, até porque aquela fora a única mulher, entre várias, que o havia resgatado a um descontentamento incompreensível que muitos anos grassara dentro de si.
Por dois anos o homem e a mulher se entenderam naquela casa levando vida leve e feliz. Ele, porém, era marinheiro da marinha mercante e andava embarcado uma metade do ano para voltar para junto dela a segunda metade. Ora, nesses dois anos, das duas vezes que regressou à aldeia vindo de mar, lhe foram as vozes soltas adverti-lo de que a esposa, durante a sua ausência, se portava mal relativamente ao laço de conjugalidade. Por duas vezes o Mário Manso desacreditou essas vozes dando apenas ouvidos à sua consciência e às evidências da deferente e carinhosa atitude da sua mulher para com ele.
- É um crime e uma perfídia que envenenem a mente de um homem contra a sua maior e mais querida protectora! - Gritou-lhes e virou as costas a essas vozes fátuas tendo, desse dia em diante, cortado relações com a sua aldeia. Ficando triste e zangado por haver cortado os laços com os seus irmãos, primos e muitos familiares, que perfaziam a totalidade dos habitantes da aldeia, consolou-o a mulher:
- Somente a ti eu pertenço. Digo-te que é precisamente por ter sido habituada a tentações que as aprendi a declinar. Pelo contrário, as tuas irmãs, cunhadas e primas, que por falta de formosura nunca foram tentadas e por obrigação se casaram… elas, sim, muito mais depressa se entregariam aos falsos elogios de um estranho!
Cativado pela beleza e força interior da sua mulher o marinheiro deitava a cabeça no seu regaço, sentindo-se triste mas algo confortado.
- Como podem eles ver crime e sujidade onde tão claramente eu vejo beleza e força?
E perguntando-se isto, adormecia de cansaço pela sua mágoa, com a mulher entrelaçando os dedos no seu cabelo.
Chegado o dia em que teve de voltar a partir para o mar, abraçou e beijou a mulher no porto, frente à grande nau, e os olhos dele estavam humedecidos com lágrimas. A mulher, no entanto, fez como se ignorasse a desconfiança que ele assim lhe demonstrava e encorajou-o.
- Vá, meu esposo! Leva-me contigo neste medalhão e jamais estaremos longe um do outro.
O Mário Manso inclinou a cabeça e ela colocou-lhe o fio com o medalhão em volta do pescoço, ao que após isto ele se afastou com ombros e cabeça descaídos e andar pesado em direcção ao cais de embarque.
Enquanto andava no alto mar o homem era de poucas falas mas muito respeitado pela sua capacidade de trabalho.
Um dia, no meio do Oceano, tendo acabado a sua labuta, olhava contemplativamente o horizonte e pensava na sua esposa quando um estranho se aproximou. Este era um jovem invulgarmente sadio e belo que tendo-se apresentado como seu novo colega assim lhe falou:
- Aí, nessa direcção para onde olhais conheço eu uma bela terra! As vinhas são particularmente resplandecentes e as casas caiadas têm um ar de neve, as mulheres são rosadas e roliças e as solteiras usam lenços verdes na fronte para se indicarem aos pretendentes. Lá para os fins de Março os habitantes reúnem-se todos numa gruta junto ao mar e oram ao deus touro e quando o céu adquire certa cor rosada, como a do primeiro vinho, eles sabem que a colheita vai ser boa. Celebram-se, então, vinte e dois dias e vinte e duas noites de festa e as moças casadoiras fazem-se convidar para bailar saltitando e dando pequenos guinchos como cotovias na alvorada.
Ouvindo isto e meio pasmado, exclamou o marinheiro:
- Mas, diabos! Se não é da minha própria terra que falas!
Tratava-se, com efeito, da sua terra natal, que o jovem havia por uma vez visitado. E muitos dias se seguiram em que os dois, após a labuta, se reuniam naquele convés para recordar como era bela a terra e caricatos os seus habitantes. Um dia, tendo-se tornado grande amigo dessa novo colega invulgarmente belo e sadio, quis convidá-lo à sua terra e a sua casa, vontade essa que prontamente lhe transmitiu. Sentindo-se bastante honrado, o jovem acentiu, pois só ainda uma vez desembarcara no referido local, donde havia colhido e levado consigo as mais calorosas memórias.
Passados alguns meses, desembarcou Mário e o seu novo amigo na terra natal do primeiro e logo se prontificou o anfitrião a apresentar o convidado aos demais habitantes. Contudo, tendo-se esquecido de que se havia posto de mal com os seus conterrâneos, foi recebido com azedume. Embora entristecido, convidou o jovem para sua casa e para o recompensar daquele inesperado inconveniente pediu à mulher que tratasse o colega como um rei presenteando-o com grande repasto e o mais apurado vinho. E assim, como um hóspede de um palácio, foi recebido durante duas semanas o novo colega.
Tendo chegado o fim da segunda semana, o marinheiro foi subitamente chamado a embarcar e comunicou-o com tom triste à sua esposa e amigo. A esposa lamentou-se e, quanto ao amigo, informou o homem que o seu navio chegaria apenas uma semana mais tarde. Dando um passo em frente, olhando cabisbaixo e circunspecto para Mário, o convidado disse-lhe:
- Amigo, por duas semanas me recebeste debaixo do teu teto. Na tua agradável companhia, e na da tua mulher, usufrui da melhor hospitalidade e mordomia. Esta súbita notícia deixa-me perturbado pois que o meu embarque se fará apenas daqui a mais uma semana e até lá não tenho onde ficar. Permiti, pois, que faça o que noutras circunstâncias nunca te pediria, que permaneça debaixo do teu teto mais sete dias sob a promessa de respeitar e honrar a tua mulher, nos bons termos e disposições de São Julião, o hospitaleiro.
O marinheiro ouviu tudo isto com um terror frio a percorrer-lhe a espinha, pois, se por um lado não se conseguia esquecer das recomendações dos seus conterrâneos, por outro, não podia deixar de ser hospitaleiro para com aquele bom amigo que até ali só lhe mostrara dignidade e confiança. Então, após ter limpo o suor frio da testa e de ter ponderado por uma fracção de segundo, puxou o convidado para um outro quarto, longe dos ouvidos da mulher, e disse-lhe:
- Meu caro, tenho todo o gosto em te conceder esse favor! Contudo, posso apenas acentir sobre certas condições: trata-se de minha mulher. Não duvides que a amo mas é-me difícil conviver com certos comentários da população. Sinto-me enlouquecer e por vezes, quase dou comigo a acreditar nas palavras deles. Mas eles é que são os loucos! Sei-o bem! E é por isso que o preciso provar! Peço-te que na minha ausência fiques atento aos modos de minha mulher contigo sem que, contudo, se tal suceder, cedas aos seus encantos. Contar-me-ás depois, ao meu regresso, sobre o amor que ela me tem. E mais uma coisa: peço-te humildemente que me perdoais este meu ardil pelo facto de não conseguir suportar ter sido excomungado do seio dos meus irmão e parentes, entre os quais estava habituado a viver.
Após ouvir isto e embora estranhando, o convidado achou-se em dívida para com o seu anfitrião e achou por bem pagar-lhe da maneira que lhe era requerido já que de certa forma abusava do prazo da sua boa hospitalidade. Pondo-lhe a mão sobre o ombro, respondeu-lhe:
- Farei como pedes, irmão! Mas deixa que te diga de minha sentença: o teu coração labora em erro se pensa que deve escolher entre esses dois amores – a esposa e a família. Fica, porém, descansado. Averiguarei as inclinações de tua mulher e quase te asseguro que em vão se agita o teu temor.
Os dois amigos selaram o acordo com um aperto de mão e foram dormir. No dia seguinte, pela madrugada, partiu o marinheiro em direcção ao alto mar.
Estando, havia já alguns dias, embarcado e longe de casa, Mário não conseguia conter a sua inquietação e passeava-se no convés à noite, de lá para cá, em vez de dormir. Contemplando o horizonte na direcção da sua terra apertava-se-lhe a garganta e o coração na curiosidade de saber o que por lá se passaria e na impotência de intervir.
Como, entretanto, havia caído doente com febres e delírios, ensimesmado que estava com aquele problema, o capitão desembarcou-o num porto do norte donde, passados alguns dias e já recuperado, apanhou novo navio rumo à sua terra.
Assim que pôs os pés em terra correu para casa e abriu com brusquidão a porta, gritando repetidamente e bem alto pelo nome da mulher. Ninguém respondia. Os quartos estavam vazios. Só as gaivotas se ouviam com os seus gritos cortantes que, embora habituado, agora lhe pareciam tão desconcertantes.
Exausto, puxou de uma cadeira e sentou-se enterrando a cara nas mãos. Depois, lentamente, levantou os olhos vermelhos e humedecidos e foi dar com uma carta sobre a mesa. Era de sua mulher:
Na ausência de Ulisses, para refrear os seus instintos face a um exército de pretendentes, Penélope entregou a totalidade do seu tempo ao laborioso fabrico de uma colcha.
Eu, porém, nunca aprendi costura.
Fim.
- É mulher ruim! Foi cortesã de muitos e acabou desposada de nenhum! Nunca se interessou pelas lides da casa, não sabe sequer costurar!
Protestaram alguns familiares que asseveravam apenas querer o seu bem. Porém, do seu bem sabia ele e não quis dar ouvidos a vozes soltas, até porque aquela fora a única mulher, entre várias, que o havia resgatado a um descontentamento incompreensível que muitos anos grassara dentro de si.
Por dois anos o homem e a mulher se entenderam naquela casa levando vida leve e feliz. Ele, porém, era marinheiro da marinha mercante e andava embarcado uma metade do ano para voltar para junto dela a segunda metade. Ora, nesses dois anos, das duas vezes que regressou à aldeia vindo de mar, lhe foram as vozes soltas adverti-lo de que a esposa, durante a sua ausência, se portava mal relativamente ao laço de conjugalidade. Por duas vezes o Mário Manso desacreditou essas vozes dando apenas ouvidos à sua consciência e às evidências da deferente e carinhosa atitude da sua mulher para com ele.
- É um crime e uma perfídia que envenenem a mente de um homem contra a sua maior e mais querida protectora! - Gritou-lhes e virou as costas a essas vozes fátuas tendo, desse dia em diante, cortado relações com a sua aldeia. Ficando triste e zangado por haver cortado os laços com os seus irmãos, primos e muitos familiares, que perfaziam a totalidade dos habitantes da aldeia, consolou-o a mulher:
- Somente a ti eu pertenço. Digo-te que é precisamente por ter sido habituada a tentações que as aprendi a declinar. Pelo contrário, as tuas irmãs, cunhadas e primas, que por falta de formosura nunca foram tentadas e por obrigação se casaram… elas, sim, muito mais depressa se entregariam aos falsos elogios de um estranho!
Cativado pela beleza e força interior da sua mulher o marinheiro deitava a cabeça no seu regaço, sentindo-se triste mas algo confortado.
- Como podem eles ver crime e sujidade onde tão claramente eu vejo beleza e força?
E perguntando-se isto, adormecia de cansaço pela sua mágoa, com a mulher entrelaçando os dedos no seu cabelo.
Chegado o dia em que teve de voltar a partir para o mar, abraçou e beijou a mulher no porto, frente à grande nau, e os olhos dele estavam humedecidos com lágrimas. A mulher, no entanto, fez como se ignorasse a desconfiança que ele assim lhe demonstrava e encorajou-o.
- Vá, meu esposo! Leva-me contigo neste medalhão e jamais estaremos longe um do outro.
O Mário Manso inclinou a cabeça e ela colocou-lhe o fio com o medalhão em volta do pescoço, ao que após isto ele se afastou com ombros e cabeça descaídos e andar pesado em direcção ao cais de embarque.
Enquanto andava no alto mar o homem era de poucas falas mas muito respeitado pela sua capacidade de trabalho.
Um dia, no meio do Oceano, tendo acabado a sua labuta, olhava contemplativamente o horizonte e pensava na sua esposa quando um estranho se aproximou. Este era um jovem invulgarmente sadio e belo que tendo-se apresentado como seu novo colega assim lhe falou:
- Aí, nessa direcção para onde olhais conheço eu uma bela terra! As vinhas são particularmente resplandecentes e as casas caiadas têm um ar de neve, as mulheres são rosadas e roliças e as solteiras usam lenços verdes na fronte para se indicarem aos pretendentes. Lá para os fins de Março os habitantes reúnem-se todos numa gruta junto ao mar e oram ao deus touro e quando o céu adquire certa cor rosada, como a do primeiro vinho, eles sabem que a colheita vai ser boa. Celebram-se, então, vinte e dois dias e vinte e duas noites de festa e as moças casadoiras fazem-se convidar para bailar saltitando e dando pequenos guinchos como cotovias na alvorada.
Ouvindo isto e meio pasmado, exclamou o marinheiro:
- Mas, diabos! Se não é da minha própria terra que falas!
Tratava-se, com efeito, da sua terra natal, que o jovem havia por uma vez visitado. E muitos dias se seguiram em que os dois, após a labuta, se reuniam naquele convés para recordar como era bela a terra e caricatos os seus habitantes. Um dia, tendo-se tornado grande amigo dessa novo colega invulgarmente belo e sadio, quis convidá-lo à sua terra e a sua casa, vontade essa que prontamente lhe transmitiu. Sentindo-se bastante honrado, o jovem acentiu, pois só ainda uma vez desembarcara no referido local, donde havia colhido e levado consigo as mais calorosas memórias.
Passados alguns meses, desembarcou Mário e o seu novo amigo na terra natal do primeiro e logo se prontificou o anfitrião a apresentar o convidado aos demais habitantes. Contudo, tendo-se esquecido de que se havia posto de mal com os seus conterrâneos, foi recebido com azedume. Embora entristecido, convidou o jovem para sua casa e para o recompensar daquele inesperado inconveniente pediu à mulher que tratasse o colega como um rei presenteando-o com grande repasto e o mais apurado vinho. E assim, como um hóspede de um palácio, foi recebido durante duas semanas o novo colega.
Tendo chegado o fim da segunda semana, o marinheiro foi subitamente chamado a embarcar e comunicou-o com tom triste à sua esposa e amigo. A esposa lamentou-se e, quanto ao amigo, informou o homem que o seu navio chegaria apenas uma semana mais tarde. Dando um passo em frente, olhando cabisbaixo e circunspecto para Mário, o convidado disse-lhe:
- Amigo, por duas semanas me recebeste debaixo do teu teto. Na tua agradável companhia, e na da tua mulher, usufrui da melhor hospitalidade e mordomia. Esta súbita notícia deixa-me perturbado pois que o meu embarque se fará apenas daqui a mais uma semana e até lá não tenho onde ficar. Permiti, pois, que faça o que noutras circunstâncias nunca te pediria, que permaneça debaixo do teu teto mais sete dias sob a promessa de respeitar e honrar a tua mulher, nos bons termos e disposições de São Julião, o hospitaleiro.
O marinheiro ouviu tudo isto com um terror frio a percorrer-lhe a espinha, pois, se por um lado não se conseguia esquecer das recomendações dos seus conterrâneos, por outro, não podia deixar de ser hospitaleiro para com aquele bom amigo que até ali só lhe mostrara dignidade e confiança. Então, após ter limpo o suor frio da testa e de ter ponderado por uma fracção de segundo, puxou o convidado para um outro quarto, longe dos ouvidos da mulher, e disse-lhe:
- Meu caro, tenho todo o gosto em te conceder esse favor! Contudo, posso apenas acentir sobre certas condições: trata-se de minha mulher. Não duvides que a amo mas é-me difícil conviver com certos comentários da população. Sinto-me enlouquecer e por vezes, quase dou comigo a acreditar nas palavras deles. Mas eles é que são os loucos! Sei-o bem! E é por isso que o preciso provar! Peço-te que na minha ausência fiques atento aos modos de minha mulher contigo sem que, contudo, se tal suceder, cedas aos seus encantos. Contar-me-ás depois, ao meu regresso, sobre o amor que ela me tem. E mais uma coisa: peço-te humildemente que me perdoais este meu ardil pelo facto de não conseguir suportar ter sido excomungado do seio dos meus irmão e parentes, entre os quais estava habituado a viver.
Após ouvir isto e embora estranhando, o convidado achou-se em dívida para com o seu anfitrião e achou por bem pagar-lhe da maneira que lhe era requerido já que de certa forma abusava do prazo da sua boa hospitalidade. Pondo-lhe a mão sobre o ombro, respondeu-lhe:
- Farei como pedes, irmão! Mas deixa que te diga de minha sentença: o teu coração labora em erro se pensa que deve escolher entre esses dois amores – a esposa e a família. Fica, porém, descansado. Averiguarei as inclinações de tua mulher e quase te asseguro que em vão se agita o teu temor.
Os dois amigos selaram o acordo com um aperto de mão e foram dormir. No dia seguinte, pela madrugada, partiu o marinheiro em direcção ao alto mar.
Estando, havia já alguns dias, embarcado e longe de casa, Mário não conseguia conter a sua inquietação e passeava-se no convés à noite, de lá para cá, em vez de dormir. Contemplando o horizonte na direcção da sua terra apertava-se-lhe a garganta e o coração na curiosidade de saber o que por lá se passaria e na impotência de intervir.
Como, entretanto, havia caído doente com febres e delírios, ensimesmado que estava com aquele problema, o capitão desembarcou-o num porto do norte donde, passados alguns dias e já recuperado, apanhou novo navio rumo à sua terra.
Assim que pôs os pés em terra correu para casa e abriu com brusquidão a porta, gritando repetidamente e bem alto pelo nome da mulher. Ninguém respondia. Os quartos estavam vazios. Só as gaivotas se ouviam com os seus gritos cortantes que, embora habituado, agora lhe pareciam tão desconcertantes.
Exausto, puxou de uma cadeira e sentou-se enterrando a cara nas mãos. Depois, lentamente, levantou os olhos vermelhos e humedecidos e foi dar com uma carta sobre a mesa. Era de sua mulher:
Na ausência de Ulisses, para refrear os seus instintos face a um exército de pretendentes, Penélope entregou a totalidade do seu tempo ao laborioso fabrico de uma colcha.
Eu, porém, nunca aprendi costura.
Fim.
quinta-feira, 2 de agosto de 2007
Invocaçao a Eros
Vai-te Tanatos
Vem ó Eros
De deleites doces, sinceros
Deixo os mortos e os pacatos
Entrego-me aos gozos severos
Vem ó Eros
Vai-te Tanatos
Vai-te Tanatos
Vem ó Eros
Dos paraísos carnais
O vinho, o fumo e os ais
Os odores que inquietam os tactos
Vem ó Eros
Vai-te Tanatos
Vai-te Tanatos
Vem ó Eros
Fora os ermitérios
Passe-se das palavras aos actos
Abram-se amplos os mistérios
Dancem as leoas e os gatos
Vem ó Eros
Vai-te Tanatos.
Vem ó Eros
De deleites doces, sinceros
Deixo os mortos e os pacatos
Entrego-me aos gozos severos
Vem ó Eros
Vai-te Tanatos
Vai-te Tanatos
Vem ó Eros
Dos paraísos carnais
O vinho, o fumo e os ais
Os odores que inquietam os tactos
Vem ó Eros
Vai-te Tanatos
Vai-te Tanatos
Vem ó Eros
Fora os ermitérios
Passe-se das palavras aos actos
Abram-se amplos os mistérios
Dancem as leoas e os gatos
Vem ó Eros
Vai-te Tanatos.
segunda-feira, 30 de julho de 2007
Os Senhores dos Adormecidos
Os que despejam esta poção na nossa água
Os Senhores dos Adormecidos
Se acordássemos não podiam nada
Contra nós que somos vivos
Os Senhores dos Adormecidos
Não os ricos ou os poderosos
Os meio-homens enganosos
Que amam representar de protector
Infligem-nos uma dose de dor
Para poderem ser o salvador
Dando palmadinhas nas costas
Nos nossos fracturados ossos!
Saboreando-nos, caviar em tostas,
Num reinado de destroços
Os Senhores dos Adormecidos
Nem sempre os públicos ou os famosos
Muitos andam andrajosos
Pobres e mal nutridos
Fazem-se puros, os orgulhosos -
Puros e pervertidos
Os Senhores dos Adormecidos
Cantam a sua perversa cantilena
A de que eu e tu, nascemos
Com a mente demasiado pequena
Para pensarmos por nós mesmos
É, portanto, forçoso, que os deixemos
Infligir-nos a sua culpa, a sua pena
Porque somos fracos e não sabemos
Os Senhores dos Adormecidos
Os de uma cultura, um só credo
Uma só lição, a doutrina do medo
Pretendem determinar o chão onde pisas
Clamam, o teu cérebro é demasiado pequeno
O mundo é mau, monstruoso, um ermo
Que só eles te podem amar como precisas
O Sr. dos Adormecidos
Defenderá com exultação
O seu real reinado de estrume
Elevando-se aos píncaros da indignação
Quando a verdade vem a lume,
Arrastando a tua dignidade na humilhação
Sempre que a mascara sucumbe
Entre os Srs. Dos Adormecidos há duas estirpes
O mosca tsé-tsé e o varejeira verde
Insistem, resistem, a menos que os estripes
Um, adormece-te em pe, como a um bebé
Para o outro, depois, vir comer-te
Os Srs. dos Adormecidos possuem ponto fraco
São só Senhores enquanto tu fores o servo
Acorda, põe-te a milhas, faz-te já ao largo
Pois, só tu lhes garantes a coroa e o ceptro.
Os Senhores dos Adormecidos
Se acordássemos não podiam nada
Contra nós que somos vivos
Os Senhores dos Adormecidos
Não os ricos ou os poderosos
Os meio-homens enganosos
Que amam representar de protector
Infligem-nos uma dose de dor
Para poderem ser o salvador
Dando palmadinhas nas costas
Nos nossos fracturados ossos!
Saboreando-nos, caviar em tostas,
Num reinado de destroços
Os Senhores dos Adormecidos
Nem sempre os públicos ou os famosos
Muitos andam andrajosos
Pobres e mal nutridos
Fazem-se puros, os orgulhosos -
Puros e pervertidos
Os Senhores dos Adormecidos
Cantam a sua perversa cantilena
A de que eu e tu, nascemos
Com a mente demasiado pequena
Para pensarmos por nós mesmos
É, portanto, forçoso, que os deixemos
Infligir-nos a sua culpa, a sua pena
Porque somos fracos e não sabemos
Os Senhores dos Adormecidos
Os de uma cultura, um só credo
Uma só lição, a doutrina do medo
Pretendem determinar o chão onde pisas
Clamam, o teu cérebro é demasiado pequeno
O mundo é mau, monstruoso, um ermo
Que só eles te podem amar como precisas
O Sr. dos Adormecidos
Defenderá com exultação
O seu real reinado de estrume
Elevando-se aos píncaros da indignação
Quando a verdade vem a lume,
Arrastando a tua dignidade na humilhação
Sempre que a mascara sucumbe
Entre os Srs. Dos Adormecidos há duas estirpes
O mosca tsé-tsé e o varejeira verde
Insistem, resistem, a menos que os estripes
Um, adormece-te em pe, como a um bebé
Para o outro, depois, vir comer-te
Os Srs. dos Adormecidos possuem ponto fraco
São só Senhores enquanto tu fores o servo
Acorda, põe-te a milhas, faz-te já ao largo
Pois, só tu lhes garantes a coroa e o ceptro.
quarta-feira, 25 de julho de 2007
Promontório do Presente
Do promontório do presente
Contemplamos o passado
O caminho aberto e o cerrado
O mar encrespado,
A terra, até onde a vista alcança
A escassez e a bonança
Pesados lado a lado
Para onde pende essa balança?
Do promontório do presente –
Todos, um dia, o teremos que subir
Chegados a loucos,
Miopes e moucos,
Os que a si mesmo fingem
Será, então, altura
De dessa alta envergadura
Testarmos a nossa vertigem
Trémulos de mente e de pernas
Há os que cedo se despenham
E que num voo picado se empenham
A lutar com as vagas nada amenas
Sem sereias serenas
Que lhes mitiguem as penas
Tritões, apenas, que os arpeiam
Outros, pouco afoitos,
Não terão sequer coragem de subir
Serão empurrados por esse cabo
A confrontar o passado – os doidos
Na berma, com o vento a bulir
E o vento grita a sua verdade maldita
Terrível de ouvir
Do promontório do presente
Porque até o presente é ilusório
O justificativo escapatório
É preciso ter presente
Quando sentimos que é premente
Para arrumar o desarrumado
Olhar do presente
Para o distante passado
Do promontório do presente
Precisaremos de óculo, de binóculo,
Para sondar o horizonte obscuro?
E será alto o suficiente o babélico observatório
Para observarmos o Ontem pouco abonatório
Sustentando-nos apenas no presente inseguro?
Quem deseja saber escala a sua escarpa
Galga-o a punho, sem bússola ou mapa
Deixa a máscara no primeiro planalto,
O figurino, no segundo
Dá sem fôlego a última braçada
Ergue-se farto de comer o pó e o nada
E do píncaro contempla o mundo.
Contemplamos o passado
O caminho aberto e o cerrado
O mar encrespado,
A terra, até onde a vista alcança
A escassez e a bonança
Pesados lado a lado
Para onde pende essa balança?
Do promontório do presente –
Todos, um dia, o teremos que subir
Chegados a loucos,
Miopes e moucos,
Os que a si mesmo fingem
Será, então, altura
De dessa alta envergadura
Testarmos a nossa vertigem
Trémulos de mente e de pernas
Há os que cedo se despenham
E que num voo picado se empenham
A lutar com as vagas nada amenas
Sem sereias serenas
Que lhes mitiguem as penas
Tritões, apenas, que os arpeiam
Outros, pouco afoitos,
Não terão sequer coragem de subir
Serão empurrados por esse cabo
A confrontar o passado – os doidos
Na berma, com o vento a bulir
E o vento grita a sua verdade maldita
Terrível de ouvir
Do promontório do presente
Porque até o presente é ilusório
O justificativo escapatório
É preciso ter presente
Quando sentimos que é premente
Para arrumar o desarrumado
Olhar do presente
Para o distante passado
Do promontório do presente
Precisaremos de óculo, de binóculo,
Para sondar o horizonte obscuro?
E será alto o suficiente o babélico observatório
Para observarmos o Ontem pouco abonatório
Sustentando-nos apenas no presente inseguro?
Quem deseja saber escala a sua escarpa
Galga-o a punho, sem bússola ou mapa
Deixa a máscara no primeiro planalto,
O figurino, no segundo
Dá sem fôlego a última braçada
Ergue-se farto de comer o pó e o nada
E do píncaro contempla o mundo.
sexta-feira, 20 de julho de 2007
Mãos inúteis
Mãos inúteis lavam as lágrimas
De crocodilo, inúteis, ofendem os olhos
Mestres hábeis da mascarada
Garras inúteis que atormentam os sonhos
Luvas inúteis constroem castelos
Fortalezas sem fim, inúteis, portanto
Driblam projectos abjectos, secretos
Fúteis, essas membros, urdem segredos
Fazendo do nada outro tanto
Apêndices inúteis de inúteis vozes
Murmurantes, sussurrantes, confidentes
Comprovam: São mais as vozes que as nozes
Batendo com a língua nos dentes
Próteses inúteis estendidas aos céus, rogando
Juntas, tacteando sem tacto, rezando
Ou sem remorso, acenando adeus
Apertando outras próteses, cumprimentando
Esticando o indicador, traindo
Traindo implacavelmente os seus

Dedos compridos, finos
Com unhas cortantes
Que se cravam, libertinos,
Nas costas dos amantes
Dedos negros, suspeitos
Vorazes e delicados
Que se espetam, inquietos
No coração dos amados
Palmas com a linha da vida: longa
A linha do coração: curta
A linha da razão: ausente
E a linha da memória: diminuta
Palmas batendo palmas
À estatura de palmo e meio
Vendo a sombra agigantar-se
Sob a luz dum candeeiro
Palmas, uma salva de palmas
Para essa alma de carroceiro
Vendo a estatura expandir-se
A troco d'algum dinheiro
Nessa dança emulando Circe
Ó mestre títereiro
Suam as mãos hipócritas
Atrás das costas, uma delas, numa figa, aperta-se
Jurando, outra, sobre o peito, pela alma dos finados
Uma faz, diligente, a continência
E a outra nunca se põe na consciência
Quando dispara sobre os condenados
Essas mãos que recebem, que pedem
Que exigem mais do que merecem
Que se vendem imundas nos mercados
Fazem do homem, homúnculo
E dos asnos, doutorados
Dos espertos, o novo mundo
E dos inteligentes, alienados.
De crocodilo, inúteis, ofendem os olhos
Mestres hábeis da mascarada
Garras inúteis que atormentam os sonhos
Luvas inúteis constroem castelos
Fortalezas sem fim, inúteis, portanto
Driblam projectos abjectos, secretos
Fúteis, essas membros, urdem segredos
Fazendo do nada outro tanto
Apêndices inúteis de inúteis vozes
Murmurantes, sussurrantes, confidentes
Comprovam: São mais as vozes que as nozes
Batendo com a língua nos dentes
Próteses inúteis estendidas aos céus, rogando
Juntas, tacteando sem tacto, rezando
Ou sem remorso, acenando adeus
Apertando outras próteses, cumprimentando
Esticando o indicador, traindo
Traindo implacavelmente os seus

Dedos compridos, finos
Com unhas cortantes
Que se cravam, libertinos,
Nas costas dos amantes
Dedos negros, suspeitos
Vorazes e delicados
Que se espetam, inquietos
No coração dos amados
Palmas com a linha da vida: longa
A linha do coração: curta
A linha da razão: ausente
E a linha da memória: diminuta
Palmas batendo palmas
À estatura de palmo e meio
Vendo a sombra agigantar-se
Sob a luz dum candeeiro
Palmas, uma salva de palmas
Para essa alma de carroceiro
Vendo a estatura expandir-se
A troco d'algum dinheiro
Nessa dança emulando Circe
Ó mestre títereiro
Suam as mãos hipócritas
Atrás das costas, uma delas, numa figa, aperta-se
Jurando, outra, sobre o peito, pela alma dos finados
Uma faz, diligente, a continência
E a outra nunca se põe na consciência
Quando dispara sobre os condenados
Essas mãos que recebem, que pedem
Que exigem mais do que merecem
Que se vendem imundas nos mercados
Fazem do homem, homúnculo
E dos asnos, doutorados
Dos espertos, o novo mundo
E dos inteligentes, alienados.
sábado, 7 de julho de 2007
O eunuco da mente
Na sua fortaleza forçada permanece
Um eunuco da mente
Irado e descontente
Que à janela de quando em quando aparece
Para dizer ao mundo como se sente
Esse forçado eunuco da mente
Anseia por fecundar um pensamento diferente
No estéril óvulo da imaginação dolente
Dos outros eunucos da mente, voluntários
Vive, no entanto, como os rosários
No pescoço das beatas pendente
Como o mais pudendo dos emissários
Vive contrafeito
Pois não lhe assiste esse direito
De ser livre e libertino
Para o ventre e para o peito
Procriando as ideias dum novo destino
Chora o eunuco da mente,
Na sua torre de marfim, implacável
Não pode descer, não o consente
O sacro, o puro, o venerável

Do seu marmóreo túmulo vertical
Avista horizontes que não pode comunicar
Está forçado esse eunuco, num pedestal
Preferia ser homem e poder pecar
O eunuco da mente está irado:
“Tirem-me da mente esse cinto da castidade!”
Sobra a semente do seu pecado não consumado
Para fecundar nenhuma verdade
Um dia descerá o eunuco da mente
Um dia, promete, um dia
Dessa torre de marfim, pétrea, fria
E expulsará o celibato num repente
Para fecundar a mãe verdade, um dia
Estuprando a sua essência pia.
Um eunuco da mente
Irado e descontente
Que à janela de quando em quando aparece
Para dizer ao mundo como se sente
Esse forçado eunuco da mente
Anseia por fecundar um pensamento diferente
No estéril óvulo da imaginação dolente
Dos outros eunucos da mente, voluntários
Vive, no entanto, como os rosários
No pescoço das beatas pendente
Como o mais pudendo dos emissários
Vive contrafeito
Pois não lhe assiste esse direito
De ser livre e libertino
Para o ventre e para o peito
Procriando as ideias dum novo destino
Chora o eunuco da mente,
Na sua torre de marfim, implacável
Não pode descer, não o consente
O sacro, o puro, o venerável

Do seu marmóreo túmulo vertical
Avista horizontes que não pode comunicar
Está forçado esse eunuco, num pedestal
Preferia ser homem e poder pecar
O eunuco da mente está irado:
“Tirem-me da mente esse cinto da castidade!”
Sobra a semente do seu pecado não consumado
Para fecundar nenhuma verdade
Um dia descerá o eunuco da mente
Um dia, promete, um dia
Dessa torre de marfim, pétrea, fria
E expulsará o celibato num repente
Para fecundar a mãe verdade, um dia
Estuprando a sua essência pia.
domingo, 1 de julho de 2007
Oeiras, um retrato

Foto: Portuguese_eyes
Os figos quase em Agosto, quase violetas
O seu perfume, no ar, um perfume caro
Nevam dos choupos os algodões – ascetas –
- Ascendendo aos céus de Santo Amaro
As ameixas brotando sanguíneas, rutilantes
No monumento ao Ultramar, aos seus mortos
Escorre-nos pelos lábios o seu sumo – bacantes –
- Celebrando c’ o sangue os heróicos esforços
Os jardins ajardinados em disposição cuidada
Por cem mãos zelosas de esmero e veludo
Nos canteiros, ei-los, a flor e a ramada
Da Páscoa ao Inverno, do Verão ao Entrudo
Uma brisa avisa, uma maresia na rua
Uma valsa quente/fria onde uma balsa desmaia
O mar marulha onde o Tejo desagua
E a balsa, bem-vinda, vem dar à nossa praia
Galopam os corcéis, na estação, as garças
Nos parques, as crianças, findando as brincadeiras
Fazem birras aos pais em cândidas farsas
Implorando-lhes: não deixem a Vila de Oeiras!
Por toda esta vida vidrante vibra a feira,
A exposição, a festa, o fabuloso arraial
Corre pelo quadrante a fascinante ribeira
Da Laje ao Atlântico, através do Pombal.
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